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3/4 de Verdade

Demián Calixto em palavras

7 May 2008

Procedimento padrão - PARTE 2 - FINAL

Demián Calixto saía da delegacia, ainda se refazendo do choque propiciado pela truculência da polícia, quando percebeu a gigantesca presença ao seu lado.

- Então, sr. Calixto, vai pra que lado? - perguntou Augustine.

- Sinceramente, não faço a menor idéia - respondeu Demián.

Isso era a mais pura verdade. Ele não fazia idéia sequer de onde estava. A cidade não era nada familiar, parecia pequena e obscura, suja e cheia de gente mal-encarada. Se tinha algum lugar pra onde ir, não sabia.

- Bom, eu estou indo pra casa, vou passar pelo centro. É perto, mas posso te dar uma carona. Além disso, é mais seguro; acho que você não quer ser assaltado de novo...

E assim, sem resposta, os dois foram seguindo em direção ao Dodge Polara do desenhista. Era antigo e deteriorado, parecia que ia cair aos pedaços. Mais tarde, Calixto perceberia que os carros na cidade onde estava eram, em geral, iguais a ou piores que aquele.

Augustine entrou lentamente, numa manobra calculada para sentar sobre o banco muito afastado, invadindo a parte traseira do carro. Foi uma cena quase cômica para Demián, um homem de dois metros de altura se encolhendo naquele carro pequeno.

Demián sentou-se ao lado do negro, bateu a porta umas três vezes até que esta se fechasse por completo. Augustine ligou o carro, acendeu os faróis, arrancou após acelerar algumas vezes em ponto morto, e os dois seguiram rumo ao centro, em meio a um trânsito calmo.

Já era noite alta, umas dez horas talvez. Augustine guiava silencioso, sem que se pudesse perceber se estava concentrado ou distraído. Poucos minutos depois, o desenhista parou o carro, em frente a um bar chamado Tempus Fugit. Lá de dentro, soava uma música embalada, um groove ao melhor estilo do jazz-funk dos anos 70. Augustine olhou para Demián e disse:

- Quer saber? acho que vou parar por aqui e tomar uma ou duas cervejas antes de ir pra casa. Minha esposa está viajando, não tenho pressa. Quer entrar também? Tem boa música e cerveja barata.

Demián assentiu, há tempos não se divertia em meio àquela tensão de suas vidas anteriores. Queria ouvir música, espantar alguns fantasmas, refrescar as idéias.

Entraram os dois no bar, mal-iluminado, pequeno, enfumaçado de cigarros e empesteado com perfume barato de prostitutas e suor dos trabalhadores braçais que ali terminavam a noite e seus salários. Uma banda viajava em sons sobre o palco. Augustine ia cumprimentando a todos, como se fosse uma figura conhecida e respeitada por ali. Sentou-se em frente ao balcão, cumprimentou também o arremedo de barman:

- Oi, Pancho, como vai a Teresa?

- Mais aguada que a nossa cerveja, Augustine. Nem sei como consigo amar aquele trambolho depois de tanto tempo.

Gargalharam os dois.

O negro pediu uma cerveja e dois copos, e então virou-se para Demián. Começou a puxar conversa.

- E então, Calixto? De onde você vem? Nunca o vi na cidade, e aqui todo mundo é visto. Na verdade, eu tenho um retrato para cada um aqui...

- Sou de Córdoba, Argentina. - disse Demián, pensando se estava mesmo dizendo a verdade.

- Tão longe... como veio parar aqui no México?

No México! Calixto também se perguntava, como havia ido parar ali. Tangenciou a pergunta:

- Estou só de passagem, visitando alguns fantasmas.

Augustine sorriu, e Demián resolveu desviar um pouco o rumo da conversa. Perguntou sobre a vida do negro, e descobriu que este tinha uma história interessante. Veio de Camarões há quinze anos, escondido num barco sem saber o destino. Chegou faminto, doente, apenas com um pedaço de carvão e algumas folhas de papel sujo. A muito custo conseguiu o primeiro banho e a primeira oportunidade de mostrar seu trabalho para a polícia. Agora, era recém-casado com uma salvadorenha chamada Elena. Não podia ter filhos porque a caxumba o esterilizou ainda na adolescência. Desenhava por paixão e sabia que era bom. Planejava uma promoção fazendo um curso para oficial de polícia.

Em meio à conversa, Pancho interrompeu e chamou o negro:

- Vamos lá, Augustine, dá uma canja pra nós!

- Irrecusável - disse o desenhista, levantando-se e indo junto ao barman até o palco.

Demián observou aquele gigante se afastando, conversando com Pancho, a mão sobre o ombro do barman. Viu também quando Augustine alcançou uma folha de papel ao amigo, antes de subir ao palco.

Augustine pegou um contrabaixo e começou a tocar de maneira estranha, embora fascinante. Era como se as duas mãos se movessem com vontades diferentes. A esquerda caminhava na região grave, aproveitando a ressonância, os captadores elétricos que se sensibilizavam ao menor toque, enquanto que a mão direita tocava ritmadamente cordas simultâneas nas áreas agudas. As mãos enormes do negro produziam síncopes, numa cadência harmônica e rítmica que perturbava por ser diferente, mas que também era bonita e resolvia-se em suas dissonâncias. Sobre essa base tão densa, Augustine começou a cantar uma canção em inglês carregado, da qual Demián pouco pôde entender, exceto por uma parte que dizia [among fireworks and stellar collisions / my soul freezing and my eyes at his traces / disturbed by his words and scared by visions / I left the gun to sing and draw their faces], a qual ficou marcada em sua mente, gravando traços de um tempo irreconhecível, fosse passado, presente ou futuro.

A distração de Demián Calixto com a voz profunda e precisa de Augustine foi interrompida por Pancho, sério, que deixou uma folha de papel sobre o balcão, à sua frente. Nela, repousava o retrato em lápis 6B do rosto assustado de Demián. Erguendo-se de uma mesa ao fundo do bar, um homem se aproximava vestindo um jaleco branco.

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6 May 2008

Procedimento padrão - PARTE 1

- Dá a carteira.

Demián Calixto ficou surpreso com aquela voz, que veio do nada, ordenando que entregasse aquilo que carregava consigo. Num ato reflexo, virou-se para ver quem lhe falava. Deu de cara com um homem pequeno, moreno, barba cerrada e cabelos crespos ensebados. Usava uma camiseta com listras horizontais pretas e verdes, uma bermuda vermelha e estava descalço.

Essa visão se deu por uma fração de segundo, antes de o homenzinho fechar a mão esquerda e desferir um soco de potência inacreditável, quase desesperada, no olho direito de Demián. Calixto falseou as pernas para trás, contorceu o rosto em dor e sentu a visão turvar pelo sangue que corria de seu supercílio.

- Dá a carteira, filha-da-puta! - berrou o bandido.

Nesse instante, um policial alto, bigodudo e de barriga proeminente apontou na esquina. Antes que o soldado pudesse assistir a qualquer ação daquele momento, o ladrão assustado começou a correr imediatamente, veloz, derrubando latas de lixo, e sumiu em meio a uma viela cem metros adiante.

Dez segundos depois, o policial se aproximou de Demián, ofegante. Não perguntou nada, apenas ordenou:

- Queira me acompanhar, senhor. Na delegacia poderemos apurar mais detalhes deste assalto, vamos capturar esse ladrãozinho de merda.

Demián seguiu junto ao guarda por alguns metros enquanto este falava algo ao rádio. Logo, uma viatura parou ao seu lado e os dois embarcaram.

No posto policial, minuitos Depois, Demián recebia cuidados precários de uma enfermeira velha e mal-humorada. Levou dois pontos na pele sobre o olho direito, sem contar com anestesia nem com a boa vontade da enfermeira.

O delegado examinava os documentos de Demián.

- Pois bem, senhor Calixto. O homem chegou a lhe tomar alguma coisa?

- Não, ele me pediu a carteira, me deu um soco e fugiu quando o policial chegou.

- Certo. Mathias, peça para o Augustine entrar - ordenou o delegado.

O homem que entrou na sala era um negro retinto, certamente tinha mais de dois metros de altura e era muito magro. Tinha a cabeça raspada, aparentava uns trinta e cinco anos e carregava uma prancheta com folhas grandes de papel branco.

O negro sorriu para Demián e apresentou-se, com um sotaque carregado:

- Augustine Oquaye-Fori, muito prazer. Vou fazer um retrato-falado do bandido. Me ajuda?

Demián assentiu, e o desenhista começou a perguntar dados diversos do homem procurado. Cabelos, nariz, barba, tamanho dos lábios, olhos, formato do rosto, cada detalhe era insistentemente revisto, e a cada série de traços, Augustine mostrava o desenho a Demián e perguntava, "Assim"?

Demián impressionou-se duplamente. Primeiro, por ter memorizado tão bem o rosto do agressor, visto que a ação foi rápida e o contato visual foi efêmero. Segundo, admirou-se com a habilidade do africano. Augustine traçava ágil, o lápis 6B viajava sobre o papel com um barulho que só os desenhistas mais treinados e conhecedores do terreno saberiam tirar da ponta de um lápis.

Ao final de uns vinte minutos, o que se apresentava diante de Calixto era o rosto quase vivo, sério, de seu agressor. Cada mancha, poro ou ruga parecia estar no lugar. Podia ver a face retorcida, transfigurada do bandido a gritar e preparar o soco. "Perfeito", ele disse, e mais uma vez Augustine sorriu. Saiu a passos largos com sua arte utilitária em direção ao corredor, chamando pelo delegado.

As horas seguintes foram tediosas. Pelo que Demián pôde perceber, os policiais tinham alguma idéia de quem poderia ser o assaltante, um larapiozinho conhecido das redondezas, há tempos caçado pela polícia. Entretanto, para cumprir o "procedimento padrão", como disse o delegado, era necessário recolher alguns suspeitos para reconhecimento.

Então, os policiais foram voltando, trazendo consigo homens encapuzados e algemados. Em seguida, Demián foi levado a uma sala com duas cadeiras e uma grande janela de vidro temperado. Calixto deu-se conta, então, de que estava em um cenário que só havia visto em filmes de ação: a sala de reconhecimento. Podia imaginar os suspeitos perfilados diante da parede graduada, mirando um espelho falso e amaldiçoando quem quer que estivesse ali atrás.

Logo, a visão se concretizou: cinco homens, enfileirados, posicionaram-se diante do vidro. Demián observou cada um. Todos tinham traços comuns: estatura baixa, barba crescida, pele morena, o tipo genérico daquele subúrbio.

Mas Demián parou no terceiro homem, não precisou mais examinar os dois restantes. Ali estava seu agressor, o bandido que queria tomar seus pertences e que lhe causou dor e constrangimento. Não poderia esquecer da expressão dos olhos, do desespero odioso, da boca entreabrindo-se para proferir ofensas aos berros; e a mão, a mão esquerda do homem pequeno que se agigantou contra seu olho. Quebrou o silêncio sem hesitar, apontou e disse:

- O terceiro. É ele, com certeza.

- Absoluta? - pergeuntou o delegado, sempre fiel ao procedimento. - Observe novamente, por favor.

- Não precisa. É ele, sim.

O delegado sai da sala por um instante, retornando rapidamente com um jaleco branco. Um soldado entra na sala além da vidraça, chama o bandido reconhecido e manda que se aproxime do espelho. Demián agora pode ver a face do ladrão, bem perto de si. Pode sentir a respiração qe embaça o vidro, pode ver nos olhos do homenzinho o mau pressentimento.

O delegado aproxima-se da janela, saca uma pistola do bolso e encosta no vidro, bem no meio dos olhos do bandido. Dispara, lançando estilhaços de espelho, sangue, osso e massa cinzenta contra os suspeitos, apavorados.

Demián, incrédulo e assustado, observa o delegado indiferente enxugar respingos de sangue do rosto e despir-se do jaleco.

- Pode se retirar agora, o caso está resolvido. - disse o delegado.

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25 Apr 2008

Demián Calixto e a vida breve

Agora Demián Calixto era menino e corria descalço por um pomar de laranjeiras. Apanhava frutas maduras pelo caminho, improvisava um cesto na camiseta surrada, as laranjas caíam; parava, juntava-as do chão. Tornava a correr em direção à velha casa.

Ao se aproximar , percebeu o destino se desvelando ante seus olhos: o pai carregava duas malas e partia a passos largos, sem olhar para trás. Demián apressou a corrida, gritava, entre ofegos, pelo pai. O homem parou e esperou o abraço do filho, que agarrou-lhe a cintura. Calixto perguntou pelo destino do pai, se voltaria à casa, quanto tempo ia levar...

O pai limitou-se a olhar para a mulher indiferente parada à porta da casa, voltou-se para o filho e disse, "um dia eu venho te ver; cuida bem da tua mãe e seja um guri legal". Beijou-lhe a testa, afastou-o gentilmente, e seguiu em passo inabalável rumo à estrada.

Demián ficou parado por alguns instantes, vendo o pai se afastar, lembrando da briga, dos gritos, ofensas que ele não escutava nem entre os meninos raivosos da beira do rio. Engolindo uma enxurrada de lágrimas, retomou sua corrida tempestuosa e seguiu em direção ao matagal.

Um rastro de laranjas levava, horas depois, à beira do arroio. Demián já havia submergido rumo a outra vida.

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18 Apr 2008

Demián Calixto e o Gramofone

Depois de morrer em Mendoza, Demián Calixto voltou a si enquanto entrava por uma porta, em um aposento pequeno, limpo e mal-iluminado por uma lâmpada incandescente muito amarelada. Vestia um terno cinza de aparência antiga, amarfanhada, e seus sapatos tinham sola de madeira, ressoando contra os tacos do assoalho.

Seguiu em frente, como que por instinto, e observou o pequeno quarto onde havia entrado. Havia uma cama de solteiro e um criado-mudo com um gramofone. Só isso. A cama era de madeira, tinha um colchão fino e lençóis modestos porém muito brancos. O criado-mudo parecia fazer conjunto com a cama, e o gramofone apontava sua bocarra para Demián.

Há tempos Calixto não ouvia música. Aproximou-se do aparelho e percebeu que havia um disco posicionado sobre a bandeja. Sem a menor preocupação em controlar a curiosidade, ergueu a agulha, observou por uma fração e segundo o giro da bandeja, e então colocou o disco a tocar. Deitou-se na cama e fechou os olhos.

A música que se revelou era uma incomum combinação de violoncelo, oboé e algum instrumento de sopro de difícil identificação. A melodia era tensa e transitava entre os três instrumentos. Um acompanhamento muito fragmentado dava uma base muito frágil à condução das vozes. A bem da verdade, a estrutura da música era algo como uma corda-bamba: um fio central, muito tênue e oscilante, uma pequena base firme de cada lado, e um oceano de ar e partículas flutuantes ao redor.

A estranheza logo tornou-se fascínio; Demián Calixto nunca havia ouvido nada igual, cada frase da melodia tocava fundo em sua sensibilidade. A certo ponto, a estrutura musical começou a se adensar, gradativamente, três vozes tão distantes entre si oscilavam entre convergências e divergências, polirritmias e simultaneidades, silêncios torturantes e agudos estridentes.

Como que hipnotizado, Demián passou os dez minutos seguintes calado, apenas ouvindo o desenrolar daquele evento sonoro. A esta altura, as notas ecoavam em sua cabeça e ele ficou alheio ao resto do mundo.

Demián Calixto não ouviu os passos vindo em sua direção, tampouco percebeu os três homens grandes e calvos que o cercaram. Abriu os olhos quando foi agarrado e puxado em direção à porta. Estendeu os braços na direção do gramofone, mas o som se esvaiu em sua mente quando foi jogado para dentro de um carro e a porta se fechou.

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16 Apr 2008

Mortes para Demián Calixto

Eram duas da manhã e Demián Calixto ainda caminhava pelas ruas de Palermo, Sicília. Não entendia porque tinha pressa, só sabia que voltara a si quando já se locomovia nervosamente sobre a calçada. Passava por becos que não conhecia, mas instintivamente sabia por quais vielas devia entrar. Estava em mangas de camisa, o vento morno soprava desde o Mediterrâneo que ficava a poucas quadras dali. Aos poucos, sua respiração recobrava o ritmo normal, e instantes vagos se revelam em sua memória ao passar em frente a uma peixaria com seu odor característico.

Quando um par de faróis se acendeu e começou a avançar em sua direção, Demián Calixto lembrou-se do que fazia em Palermo. Mas já era tarde demais.

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Demián Calixto estava sentado sobre uma cadeira de balanço. Mirava o campo, mar verde infinito, horizonte a fugir da vista. Era agosto, ele agora era velho e observava uma fazenda em Mendoza. Seria sua aquela terra? O que aconteceu com a Ibéria, Córdoba, Porto Alegre, Palermo? Onde estava seu amigo Martín? Onde estavam sua mulher, seu filho, sua amante? Estava cansado de sonhar dentro de sonhos e não ter sua vida de volta. Tinha saudades daquilo de que nem lembrava mais. Sentia frio e a solidão trouxe lágrimas aos seus olhos.

O vento frio o atingiu e ele estremeceu, como que antevendo o próximo sonho. Respirou fundo, e suas mãos endurecidas cerraram-se de vez, parando lágrimas, olhos e coração.

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Primeiro dia depois de ontem

Eu acordei lentamente. Não foi um despertar daqueles de cinema, com direito ao Sol batendo no rosto e pássaros cantando. Eu simplesmente despertei, os olhos pesados e a boca seca, imerso na habitual penumbra que se espalha dentro dos aposentos de dormir.
Olhei para o teto, procurando forças para me espreguiçar. Visualizei o forro branco, nele pendurado um lustre barato que cobria uma lâmpada embaçada, de igual ou menor valor. Me estiquei, percebendo então que eu estava sobre uma cama de casal.
Não era o meu quarto.
Já sentado sobre a cama, olhei ao redor. As paredes eram brancas, havia quadros inexpressivos, um roupeiro pequeno, uma televisão e uma penteadeira, sobre a qual eu pude visualizar dois porta-retratos.
Levantei rapidamente, olhei para a cama desfeita, a fim de encontrar alguma coisa sequer que ligasse minha presença naquele quarto aos acontecimentos do dia anterior.
Nada combinava; até onde eu me lembrava eu havia saído com meu amigo Martín, à noite, depois do trabalho. Fomos ao pub do Senhor Walther, a fim de beber algumas doses de vinho barato e, talvez, conquistar a companhia de algumas garotas. Terminamos a noite um pouco frustrados pela falta de garotas interessantes, e nem nos demos o luxo de ficarmos bêbados. Me despedi de Martín e subi para o apartamento onde moro sozinho. Escovei os dentes e desabei sobre a cama, de casaco e tudo.
Foi uma noite comum do inverno em Córdoba. Fui dormir normalmente, e então acordei em um lugar estranho, vestindo um pijama surrado e sentindo calor. Caminhei pelo quarto, a fim de reconhecer algo familiar naquele ambiente tão estranho. Não havia nada de especial naquele quarto pequeno; dei sucessivas voltas em torno da cama, até que me detive em frente ao espelho da penteadeira.
O que eu via com certeza era meu rosto, mas era como se eu tivesse dormido com vinte e dois anos, e acordado com quarenta e cinco. Os cabelos eram despenteados e as cãs começavam a se espelhar pelas têmporas. Pela primeira vez, eu tinha uma barba cerrada; começava ao fim das costeletas, se espalhava pelas bochechas, pelo queixo, invadia o pescoço, emendava-se com um bigode espesso e negro. Rugas ainda discretas vincavam os cantos dos olhos, a testa e os lados da boca. Meus ombros eram mais largos, e eu visivelmente havia ganho uns sete ou oito quilos.
Agora eu já estava realmente chocado. Baixei os olhos em direção aos porta-retratos, e então meu pavor aumentou ainda mais. Havia fotos minhas com uma mulher, de aparência insípida, os cabelos lisos até os ombros, olhos castanhos tão comuns quanto o seu rosto oval e seu nariz médio.
Quando respirei fundo e parei de ouvir as batidas em meu próprio peito, percebi o barulho de um chuveiro: eu não estava sozinho. Caminhei, lentamente, até a porta de onde o som parecia vir. Ouvi o jato forte de água, acompanhado por uma afinada voz feminina cantarolando uma melodia vagamente familiar.
Tomado pelo estranhamento, só queria fugir e encontrar minha casa, sair à rua e me deparar com os rostos conhecidos, ir até a firma onde trabalho, me livrar daquele sonho sem sentido.
Fui até o roupeiro, abri as portas e vi duas camisas, uma calça jeans e um par de meias. Vesti-os, serviam perfeitamente em meu corpo. Meus sapatos estavam ao lado da cama. Peguei-os em minhas mãos, e caminhei silenciosamente em direção à porta de saída do quarto. Passei por um corredor, apressadamente visualizei uma cozinha e uma sala de TV. Ao final do corredor, a porta da rua, com a chave ainda na fechadura.
Destranquei a porta, olhei para a rua. Não havia sol, nuvens cinzentas traziam o ar de uma chuva que se aproximava. Era uma rua como se fosse em um bairro afastado, poucas pessoas passavam e as casas eram bastante modestas. Tudo era completamente desconhecido.
Sentei-me, então, no meio-fio, a fim de calçar os sapatos. Feito isso, me levantei incomodado por volumes estranhos. Tateei os bolsos das calças. No bolso traseiro, havia uma carteira com meus documentos, um cartão de crédito e alguns poucos pesos. No direito, um telefone celular. Peguei-o, e vi que havia uma mensagem de texto:
"Por onde andas? O menino não passa bem. Beijos, tua esposa."
Meti a mão no bolso esquerdo. Dentro, havia uma aliança. Em minha mão esquerda, uma discreta marca no dedo anular contrastava com minha pele bronzeada.

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