3/4 de Verdade

Demián Calixto em palavras

25 Apr 2008

Demián Calixto e a vida breve

Agora Demián Calixto era menino e corria descalço por um pomar de laranjeiras. Apanhava frutas maduras pelo caminho, improvisava um cesto na camiseta surrada, as laranjas caíam; parava, juntava-as do chão. Tornava a correr em direção à velha casa.

Ao se aproximar , percebeu o destino se desvelando ante seus olhos: o pai carregava duas malas e partia a passos largos, sem olhar para trás. Demián apressou a corrida, gritava, entre ofegos, pelo pai. O homem parou e esperou o abraço do filho, que agarrou-lhe a cintura. Calixto perguntou pelo destino do pai, se voltaria à casa, quanto tempo ia levar...

O pai limitou-se a olhar para a mulher indiferente parada à porta da casa, voltou-se para o filho e disse, "um dia eu venho te ver; cuida bem da tua mãe e seja um guri legal". Beijou-lhe a testa, afastou-o gentilmente, e seguiu em passo inabalável rumo à estrada.

Demián ficou parado por alguns instantes, vendo o pai se afastar, lembrando da briga, dos gritos, ofensas que ele não escutava nem entre os meninos raivosos da beira do rio. Engolindo uma enxurrada de lágrimas, retomou sua corrida tempestuosa e seguiu em direção ao matagal.

Um rastro de laranjas levava, horas depois, à beira do arroio. Demián já havia submergido rumo a outra vida.

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18 Apr 2008

Demián Calixto e o Gramofone

Depois de morrer em Mendoza, Demián Calixto voltou a si enquanto entrava por uma porta, em um aposento pequeno, limpo e mal-iluminado por uma lâmpada incandescente muito amarelada. Vestia um terno cinza de aparência antiga, amarfanhada, e seus sapatos tinham sola de madeira, ressoando contra os tacos do assoalho.

Seguiu em frente, como que por instinto, e observou o pequeno quarto onde havia entrado. Havia uma cama de solteiro e um criado-mudo com um gramofone. Só isso. A cama era de madeira, tinha um colchão fino e lençóis modestos porém muito brancos. O criado-mudo parecia fazer conjunto com a cama, e o gramofone apontava sua bocarra para Demián.

Há tempos Calixto não ouvia música. Aproximou-se do aparelho e percebeu que havia um disco posicionado sobre a bandeja. Sem a menor preocupação em controlar a curiosidade, ergueu a agulha, observou por uma fração e segundo o giro da bandeja, e então colocou o disco a tocar. Deitou-se na cama e fechou os olhos.

A música que se revelou era uma incomum combinação de violoncelo, oboé e algum instrumento de sopro de difícil identificação. A melodia era tensa e transitava entre os três instrumentos. Um acompanhamento muito fragmentado dava uma base muito frágil à condução das vozes. A bem da verdade, a estrutura da música era algo como uma corda-bamba: um fio central, muito tênue e oscilante, uma pequena base firme de cada lado, e um oceano de ar e partículas flutuantes ao redor.

A estranheza logo tornou-se fascínio; Demián Calixto nunca havia ouvido nada igual, cada frase da melodia tocava fundo em sua sensibilidade. A certo ponto, a estrutura musical começou a se adensar, gradativamente, três vozes tão distantes entre si oscilavam entre convergências e divergências, polirritmias e simultaneidades, silêncios torturantes e agudos estridentes.

Como que hipnotizado, Demián passou os dez minutos seguintes calado, apenas ouvindo o desenrolar daquele evento sonoro. A esta altura, as notas ecoavam em sua cabeça e ele ficou alheio ao resto do mundo.

Demián Calixto não ouviu os passos vindo em sua direção, tampouco percebeu os três homens grandes e calvos que o cercaram. Abriu os olhos quando foi agarrado e puxado em direção à porta. Estendeu os braços na direção do gramofone, mas o som se esvaiu em sua mente quando foi jogado para dentro de um carro e a porta se fechou.

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16 Apr 2008

Mortes para Demián Calixto

Eram duas da manhã e Demián Calixto ainda caminhava pelas ruas de Palermo, Sicília. Não entendia porque tinha pressa, só sabia que voltara a si quando já se locomovia nervosamente sobre a calçada. Passava por becos que não conhecia, mas instintivamente sabia por quais vielas devia entrar. Estava em mangas de camisa, o vento morno soprava desde o Mediterrâneo que ficava a poucas quadras dali. Aos poucos, sua respiração recobrava o ritmo normal, e instantes vagos se revelam em sua memória ao passar em frente a uma peixaria com seu odor característico.

Quando um par de faróis se acendeu e começou a avançar em sua direção, Demián Calixto lembrou-se do que fazia em Palermo. Mas já era tarde demais.

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Demián Calixto estava sentado sobre uma cadeira de balanço. Mirava o campo, mar verde infinito, horizonte a fugir da vista. Era agosto, ele agora era velho e observava uma fazenda em Mendoza. Seria sua aquela terra? O que aconteceu com a Ibéria, Córdoba, Porto Alegre, Palermo? Onde estava seu amigo Martín? Onde estavam sua mulher, seu filho, sua amante? Estava cansado de sonhar dentro de sonhos e não ter sua vida de volta. Tinha saudades daquilo de que nem lembrava mais. Sentia frio e a solidão trouxe lágrimas aos seus olhos.

O vento frio o atingiu e ele estremeceu, como que antevendo o próximo sonho. Respirou fundo, e suas mãos endurecidas cerraram-se de vez, parando lágrimas, olhos e coração.

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Primeiro dia depois de ontem

Eu acordei lentamente. Não foi um despertar daqueles de cinema, com direito ao Sol batendo no rosto e pássaros cantando. Eu simplesmente despertei, os olhos pesados e a boca seca, imerso na habitual penumbra que se espalha dentro dos aposentos de dormir.
Olhei para o teto, procurando forças para me espreguiçar. Visualizei o forro branco, nele pendurado um lustre barato que cobria uma lâmpada embaçada, de igual ou menor valor. Me estiquei, percebendo então que eu estava sobre uma cama de casal.
Não era o meu quarto.
Já sentado sobre a cama, olhei ao redor. As paredes eram brancas, havia quadros inexpressivos, um roupeiro pequeno, uma televisão e uma penteadeira, sobre a qual eu pude visualizar dois porta-retratos.
Levantei rapidamente, olhei para a cama desfeita, a fim de encontrar alguma coisa sequer que ligasse minha presença naquele quarto aos acontecimentos do dia anterior.
Nada combinava; até onde eu me lembrava eu havia saído com meu amigo Martín, à noite, depois do trabalho. Fomos ao pub do Senhor Walther, a fim de beber algumas doses de vinho barato e, talvez, conquistar a companhia de algumas garotas. Terminamos a noite um pouco frustrados pela falta de garotas interessantes, e nem nos demos o luxo de ficarmos bêbados. Me despedi de Martín e subi para o apartamento onde moro sozinho. Escovei os dentes e desabei sobre a cama, de casaco e tudo.
Foi uma noite comum do inverno em Córdoba. Fui dormir normalmente, e então acordei em um lugar estranho, vestindo um pijama surrado e sentindo calor. Caminhei pelo quarto, a fim de reconhecer algo familiar naquele ambiente tão estranho. Não havia nada de especial naquele quarto pequeno; dei sucessivas voltas em torno da cama, até que me detive em frente ao espelho da penteadeira.
O que eu via com certeza era meu rosto, mas era como se eu tivesse dormido com vinte e dois anos, e acordado com quarenta e cinco. Os cabelos eram despenteados e as cãs começavam a se espelhar pelas têmporas. Pela primeira vez, eu tinha uma barba cerrada; começava ao fim das costeletas, se espalhava pelas bochechas, pelo queixo, invadia o pescoço, emendava-se com um bigode espesso e negro. Rugas ainda discretas vincavam os cantos dos olhos, a testa e os lados da boca. Meus ombros eram mais largos, e eu visivelmente havia ganho uns sete ou oito quilos.
Agora eu já estava realmente chocado. Baixei os olhos em direção aos porta-retratos, e então meu pavor aumentou ainda mais. Havia fotos minhas com uma mulher, de aparência insípida, os cabelos lisos até os ombros, olhos castanhos tão comuns quanto o seu rosto oval e seu nariz médio.
Quando respirei fundo e parei de ouvir as batidas em meu próprio peito, percebi o barulho de um chuveiro: eu não estava sozinho. Caminhei, lentamente, até a porta de onde o som parecia vir. Ouvi o jato forte de água, acompanhado por uma afinada voz feminina cantarolando uma melodia vagamente familiar.
Tomado pelo estranhamento, só queria fugir e encontrar minha casa, sair à rua e me deparar com os rostos conhecidos, ir até a firma onde trabalho, me livrar daquele sonho sem sentido.
Fui até o roupeiro, abri as portas e vi duas camisas, uma calça jeans e um par de meias. Vesti-os, serviam perfeitamente em meu corpo. Meus sapatos estavam ao lado da cama. Peguei-os em minhas mãos, e caminhei silenciosamente em direção à porta de saída do quarto. Passei por um corredor, apressadamente visualizei uma cozinha e uma sala de TV. Ao final do corredor, a porta da rua, com a chave ainda na fechadura.
Destranquei a porta, olhei para a rua. Não havia sol, nuvens cinzentas traziam o ar de uma chuva que se aproximava. Era uma rua como se fosse em um bairro afastado, poucas pessoas passavam e as casas eram bastante modestas. Tudo era completamente desconhecido.
Sentei-me, então, no meio-fio, a fim de calçar os sapatos. Feito isso, me levantei incomodado por volumes estranhos. Tateei os bolsos das calças. No bolso traseiro, havia uma carteira com meus documentos, um cartão de crédito e alguns poucos pesos. No direito, um telefone celular. Peguei-o, e vi que havia uma mensagem de texto:
"Por onde andas? O menino não passa bem. Beijos, tua esposa."
Meti a mão no bolso esquerdo. Dentro, havia uma aliança. Em minha mão esquerda, uma discreta marca no dedo anular contrastava com minha pele bronzeada.

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