Demián Calixto e o Gramofone
Depois de morrer em Mendoza, Demián Calixto voltou a si enquanto entrava por uma porta, em um aposento pequeno, limpo e mal-iluminado por uma lâmpada incandescente muito amarelada. Vestia um terno cinza de aparência antiga, amarfanhada, e seus sapatos tinham sola de madeira, ressoando contra os tacos do assoalho.
Seguiu em frente, como que por instinto, e observou o pequeno quarto onde havia entrado. Havia uma cama de solteiro e um criado-mudo com um gramofone. Só isso. A cama era de madeira, tinha um colchão fino e lençóis modestos porém muito brancos. O criado-mudo parecia fazer conjunto com a cama, e o gramofone apontava sua bocarra para Demián.
Há tempos Calixto não ouvia música. Aproximou-se do aparelho e percebeu que havia um disco posicionado sobre a bandeja. Sem a menor preocupação em controlar a curiosidade, ergueu a agulha, observou por uma fração e segundo o giro da bandeja, e então colocou o disco a tocar. Deitou-se na cama e fechou os olhos.
A música que se revelou era uma incomum combinação de violoncelo, oboé e algum instrumento de sopro de difícil identificação. A melodia era tensa e transitava entre os três instrumentos. Um acompanhamento muito fragmentado dava uma base muito frágil à condução das vozes. A bem da verdade, a estrutura da música era algo como uma corda-bamba: um fio central, muito tênue e oscilante, uma pequena base firme de cada lado, e um oceano de ar e partículas flutuantes ao redor.
A estranheza logo tornou-se fascínio; Demián Calixto nunca havia ouvido nada igual, cada frase da melodia tocava fundo em sua sensibilidade. A certo ponto, a estrutura musical começou a se adensar, gradativamente, três vozes tão distantes entre si oscilavam entre convergências e divergências, polirritmias e simultaneidades, silêncios torturantes e agudos estridentes.
Como que hipnotizado, Demián passou os dez minutos seguintes calado, apenas ouvindo o desenrolar daquele evento sonoro. A esta altura, as notas ecoavam em sua cabeça e ele ficou alheio ao resto do mundo.
Demián Calixto não ouviu os passos vindo em sua direção, tampouco percebeu os três homens grandes e calvos que o cercaram. Abriu os olhos quando foi agarrado e puxado em direção à porta. Estendeu os braços na direção do gramofone, mas o som se esvaiu em sua mente quando foi jogado para dentro de um carro e a porta se fechou.


















Hhahahahah...
Seria intrigantes mesmo...
Eu também não comeria daquela carne..rsrsssss
Muito obrigada pela visita Jean, volte sempre que quiser e sinta-se à vontade!
BEIJÃO!
Té mais!
^^
Comment by Lídia — 21 Apr 2008 @ 8:55 pm
Olá Calixto!
Gostei do texto. Me sinto assim com alguns sons também. Existem sons que são tão intimos que eles chegam a ser silenciosos pra no nosso interior.
Final tenso, volto saber mais.
Espero sua visita, abraços!
Comment by Daniel Nekatschalow Bonfim — 22 Apr 2008 @ 11:30 am
Olá, Jean!
Primeiro, muito o brigado pela visita à Coluna.
Em segundo, gostei muito do leiaute do seu blog. Gostei do conto do Calixto, e seguirei agora para o de baixo, pra lê-lo também.
Obrigado por me lincar e farei o mesmo com 3/4 de Verdade agora, belê?
Vou fuçar mais por aqui. Abraços!
Comment by Fernando — 22 Apr 2008 @ 11:32 am
Respiração suspensa por aqui :-))
Beijo!
Comment by flávia B. — 23 Apr 2008 @ 9:36 am
Realismo fantástico. Fantástico, Jean!
Levaremos estas linhas pra ler em casa em momento mais inspirado.
Valeu pela visita e grande abraço!
Comment by gustavão — 23 Apr 2008 @ 1:56 pm