Demián Calixto e a vida breve
Agora Demián Calixto era menino e corria descalço por um pomar de laranjeiras. Apanhava frutas maduras pelo caminho, improvisava um cesto na camiseta surrada, as laranjas caíam; parava, juntava-as do chão. Tornava a correr em direção à velha casa.
Ao se aproximar , percebeu o destino se desvelando ante seus olhos: o pai carregava duas malas e partia a passos largos, sem olhar para trás. Demián apressou a corrida, gritava, entre ofegos, pelo pai. O homem parou e esperou o abraço do filho, que agarrou-lhe a cintura. Calixto perguntou pelo destino do pai, se voltaria à casa, quanto tempo ia levar...
O pai limitou-se a olhar para a mulher indiferente parada à porta da casa, voltou-se para o filho e disse, "um dia eu venho te ver; cuida bem da tua mãe e seja um guri legal". Beijou-lhe a testa, afastou-o gentilmente, e seguiu em passo inabalável rumo à estrada.
Demián ficou parado por alguns instantes, vendo o pai se afastar, lembrando da briga, dos gritos, ofensas que ele não escutava nem entre os meninos raivosos da beira do rio. Engolindo uma enxurrada de lágrimas, retomou sua corrida tempestuosa e seguiu em direção ao matagal.
Um rastro de laranjas levava, horas depois, à beira do arroio. Demián já havia submergido rumo a outra vida.


















hoje os blogs novos estão a surpreender-me (novos para mim, claro)
Adorei
Obrigada pela visita
bjs
a
http://miniminimos.blogspot.com/
Comment by hemisfério norte — 26 Apr 2008 @ 7:14 am
Olá! Gostei da nostalgia presente neste texto. Uma visão importante da infância. Obrigada pelo link, este será retribuído!
Comment by Claudinha — 27 Apr 2008 @ 11:53 am
Me lembrou aquelas situações em que o bebê é tirado do colo da mãe e começa a chorar.
Muito bom.
Um abraço.
Comment by Daniel N Bonfim — 27 Apr 2008 @ 3:35 pm
Sempre me surpreendo com a qualidade e intensidade dos textos que aqui encontro!
Parabéns.
Um beijo.
http://www.omeugirassol.blogspot.com
http://www.vivovermelho.blogspot.com
Comment by Girassol — 28 Apr 2008 @ 4:08 pm
Jean.
Neste seu espaço cultural... continuo lendo e aprendendo.
Abraço.
Comment by Antonio Ximenes — 29 Apr 2008 @ 11:41 am
E quem, como Demian, nunca sofreu com a descoberta da dor da perda?
Texto cheio de sensibilidade, gaúcho... de acariciar os olhos da gente.
Beijo!
Comment by flávia B. — 30 Apr 2008 @ 1:02 am
Uma pérola. A ensidade não é apenas essa evolução passo a passo, de expectativa e poesia, que o texto traz ao leitor. E que delicia. É aquele soco final, no estômago, que enjoa e encanta, que dá um nó de choro com más recordações, e um sorriso bobo de quem descobre um belo texto. Parabéns. Deminás Calixto é filme!
Comment by Oscar Bessi Filho — 1 May 2008 @ 5:09 pm
Agora deu certo bro. Boa sorte no novo hospedeiro.
Um dia nos dá uma aula de como profissionalizar nosso blog? Só sabemos de escrever.
Abrax!
Comment by gustavão — 2 May 2008 @ 2:55 pm
Passando pra deixar um abraço regado a chimarrão :)))
Comment by flávia B. — 3 May 2008 @ 3:08 am
Então, caríssimo! Teu comentário ao nosso continho "Pequeno diálogo estúpido..." tava tão bão, mas tão bão, que fazemos um convite: que tal transformá-lo em um mini conto perverso? Publicamos lá com todos os seus créditos de colaboração. Se gostar do desafio, avise!
Comment by gustavão — 5 May 2008 @ 1:52 pm
Ah, ontem botamos gengibre na erva do chumas que tava meio passada na cuia. Não deu certo, ainda.
Comment by gustavão — 5 May 2008 @ 1:53 pm