3/4 de Verdade

Demián Calixto em palavras

6 May 2008

Procedimento padrão - PARTE 1

- Dá a carteira.

Demián Calixto ficou surpreso com aquela voz, que veio do nada, ordenando que entregasse aquilo que carregava consigo. Num ato reflexo, virou-se para ver quem lhe falava. Deu de cara com um homem pequeno, moreno, barba cerrada e cabelos crespos ensebados. Usava uma camiseta com listras horizontais pretas e verdes, uma bermuda vermelha e estava descalço.

Essa visão se deu por uma fração de segundo, antes de o homenzinho fechar a mão esquerda e desferir um soco de potência inacreditável, quase desesperada, no olho direito de Demián. Calixto falseou as pernas para trás, contorceu o rosto em dor e sentu a visão turvar pelo sangue que corria de seu supercílio.

- Dá a carteira, filha-da-puta! - berrou o bandido.

Nesse instante, um policial alto, bigodudo e de barriga proeminente apontou na esquina. Antes que o soldado pudesse assistir a qualquer ação daquele momento, o ladrão assustado começou a correr imediatamente, veloz, derrubando latas de lixo, e sumiu em meio a uma viela cem metros adiante.

Dez segundos depois, o policial se aproximou de Demián, ofegante. Não perguntou nada, apenas ordenou:

- Queira me acompanhar, senhor. Na delegacia poderemos apurar mais detalhes deste assalto, vamos capturar esse ladrãozinho de merda.

Demián seguiu junto ao guarda por alguns metros enquanto este falava algo ao rádio. Logo, uma viatura parou ao seu lado e os dois embarcaram.

No posto policial, minuitos Depois, Demián recebia cuidados precários de uma enfermeira velha e mal-humorada. Levou dois pontos na pele sobre o olho direito, sem contar com anestesia nem com a boa vontade da enfermeira.

O delegado examinava os documentos de Demián.

- Pois bem, senhor Calixto. O homem chegou a lhe tomar alguma coisa?

- Não, ele me pediu a carteira, me deu um soco e fugiu quando o policial chegou.

- Certo. Mathias, peça para o Augustine entrar - ordenou o delegado.

O homem que entrou na sala era um negro retinto, certamente tinha mais de dois metros de altura e era muito magro. Tinha a cabeça raspada, aparentava uns trinta e cinco anos e carregava uma prancheta com folhas grandes de papel branco.

O negro sorriu para Demián e apresentou-se, com um sotaque carregado:

- Augustine Oquaye-Fori, muito prazer. Vou fazer um retrato-falado do bandido. Me ajuda?

Demián assentiu, e o desenhista começou a perguntar dados diversos do homem procurado. Cabelos, nariz, barba, tamanho dos lábios, olhos, formato do rosto, cada detalhe era insistentemente revisto, e a cada série de traços, Augustine mostrava o desenho a Demián e perguntava, "Assim"?

Demián impressionou-se duplamente. Primeiro, por ter memorizado tão bem o rosto do agressor, visto que a ação foi rápida e o contato visual foi efêmero. Segundo, admirou-se com a habilidade do africano. Augustine traçava ágil, o lápis 6B viajava sobre o papel com um barulho que só os desenhistas mais treinados e conhecedores do terreno saberiam tirar da ponta de um lápis.

Ao final de uns vinte minutos, o que se apresentava diante de Calixto era o rosto quase vivo, sério, de seu agressor. Cada mancha, poro ou ruga parecia estar no lugar. Podia ver a face retorcida, transfigurada do bandido a gritar e preparar o soco. "Perfeito", ele disse, e mais uma vez Augustine sorriu. Saiu a passos largos com sua arte utilitária em direção ao corredor, chamando pelo delegado.

As horas seguintes foram tediosas. Pelo que Demián pôde perceber, os policiais tinham alguma idéia de quem poderia ser o assaltante, um larapiozinho conhecido das redondezas, há tempos caçado pela polícia. Entretanto, para cumprir o "procedimento padrão", como disse o delegado, era necessário recolher alguns suspeitos para reconhecimento.

Então, os policiais foram voltando, trazendo consigo homens encapuzados e algemados. Em seguida, Demián foi levado a uma sala com duas cadeiras e uma grande janela de vidro temperado. Calixto deu-se conta, então, de que estava em um cenário que só havia visto em filmes de ação: a sala de reconhecimento. Podia imaginar os suspeitos perfilados diante da parede graduada, mirando um espelho falso e amaldiçoando quem quer que estivesse ali atrás.

Logo, a visão se concretizou: cinco homens, enfileirados, posicionaram-se diante do vidro. Demián observou cada um. Todos tinham traços comuns: estatura baixa, barba crescida, pele morena, o tipo genérico daquele subúrbio.

Mas Demián parou no terceiro homem, não precisou mais examinar os dois restantes. Ali estava seu agressor, o bandido que queria tomar seus pertences e que lhe causou dor e constrangimento. Não poderia esquecer da expressão dos olhos, do desespero odioso, da boca entreabrindo-se para proferir ofensas aos berros; e a mão, a mão esquerda do homem pequeno que se agigantou contra seu olho. Quebrou o silêncio sem hesitar, apontou e disse:

- O terceiro. É ele, com certeza.

- Absoluta? - pergeuntou o delegado, sempre fiel ao procedimento. - Observe novamente, por favor.

- Não precisa. É ele, sim.

O delegado sai da sala por um instante, retornando rapidamente com um jaleco branco. Um soldado entra na sala além da vidraça, chama o bandido reconhecido e manda que se aproxime do espelho. Demián agora pode ver a face do ladrão, bem perto de si. Pode sentir a respiração qe embaça o vidro, pode ver nos olhos do homenzinho o mau pressentimento.

O delegado aproxima-se da janela, saca uma pistola do bolso e encosta no vidro, bem no meio dos olhos do bandido. Dispara, lançando estilhaços de espelho, sangue, osso e massa cinzenta contra os suspeitos, apavorados.

Demián, incrédulo e assustado, observa o delegado indiferente enxugar respingos de sangue do rosto e despir-se do jaleco.

- Pode se retirar agora, o caso está resolvido. - disse o delegado.

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