Procedimento padrão - PARTE 2 - FINAL
Demián Calixto saía da delegacia, ainda se refazendo do choque propiciado pela truculência da polícia, quando percebeu a gigantesca presença ao seu lado.
- Então, sr. Calixto, vai pra que lado? - perguntou Augustine.
- Sinceramente, não faço a menor idéia - respondeu Demián.
Isso era a mais pura verdade. Ele não fazia idéia sequer de onde estava. A cidade não era nada familiar, parecia pequena e obscura, suja e cheia de gente mal-encarada. Se tinha algum lugar pra onde ir, não sabia.
- Bom, eu estou indo pra casa, vou passar pelo centro. É perto, mas posso te dar uma carona. Além disso, é mais seguro; acho que você não quer ser assaltado de novo...
E assim, sem resposta, os dois foram seguindo em direção ao Dodge Polara do desenhista. Era antigo e deteriorado, parecia que ia cair aos pedaços. Mais tarde, Calixto perceberia que os carros na cidade onde estava eram, em geral, iguais a ou piores que aquele.
Augustine entrou lentamente, numa manobra calculada para sentar sobre o banco muito afastado, invadindo a parte traseira do carro. Foi uma cena quase cômica para Demián, um homem de dois metros de altura se encolhendo naquele carro pequeno.
Demián sentou-se ao lado do negro, bateu a porta umas três vezes até que esta se fechasse por completo. Augustine ligou o carro, acendeu os faróis, arrancou após acelerar algumas vezes em ponto morto, e os dois seguiram rumo ao centro, em meio a um trânsito calmo.
Já era noite alta, umas dez horas talvez. Augustine guiava silencioso, sem que se pudesse perceber se estava concentrado ou distraído. Poucos minutos depois, o desenhista parou o carro, em frente a um bar chamado Tempus Fugit. Lá de dentro, soava uma música embalada, um groove ao melhor estilo do jazz-funk dos anos 70. Augustine olhou para Demián e disse:
- Quer saber? acho que vou parar por aqui e tomar uma ou duas cervejas antes de ir pra casa. Minha esposa está viajando, não tenho pressa. Quer entrar também? Tem boa música e cerveja barata.
Demián assentiu, há tempos não se divertia em meio àquela tensão de suas vidas anteriores. Queria ouvir música, espantar alguns fantasmas, refrescar as idéias.
Entraram os dois no bar, mal-iluminado, pequeno, enfumaçado de cigarros e empesteado com perfume barato de prostitutas e suor dos trabalhadores braçais que ali terminavam a noite e seus salários. Uma banda viajava em sons sobre o palco. Augustine ia cumprimentando a todos, como se fosse uma figura conhecida e respeitada por ali. Sentou-se em frente ao balcão, cumprimentou também o arremedo de barman:
- Oi, Pancho, como vai a Teresa?
- Mais aguada que a nossa cerveja, Augustine. Nem sei como consigo amar aquele trambolho depois de tanto tempo.
Gargalharam os dois.
O negro pediu uma cerveja e dois copos, e então virou-se para Demián. Começou a puxar conversa.
- E então, Calixto? De onde você vem? Nunca o vi na cidade, e aqui todo mundo é visto. Na verdade, eu tenho um retrato para cada um aqui...
- Sou de Córdoba, Argentina. - disse Demián, pensando se estava mesmo dizendo a verdade.
- Tão longe... como veio parar aqui no México?
No México! Calixto também se perguntava, como havia ido parar ali. Tangenciou a pergunta:
- Estou só de passagem, visitando alguns fantasmas.
Augustine sorriu, e Demián resolveu desviar um pouco o rumo da conversa. Perguntou sobre a vida do negro, e descobriu que este tinha uma história interessante. Veio de Camarões há quinze anos, escondido num barco sem saber o destino. Chegou faminto, doente, apenas com um pedaço de carvão e algumas folhas de papel sujo. A muito custo conseguiu o primeiro banho e a primeira oportunidade de mostrar seu trabalho para a polícia. Agora, era recém-casado com uma salvadorenha chamada Elena. Não podia ter filhos porque a caxumba o esterilizou ainda na adolescência. Desenhava por paixão e sabia que era bom. Planejava uma promoção fazendo um curso para oficial de polícia.
Em meio à conversa, Pancho interrompeu e chamou o negro:
- Vamos lá, Augustine, dá uma canja pra nós!
- Irrecusável - disse o desenhista, levantando-se e indo junto ao barman até o palco.
Demián observou aquele gigante se afastando, conversando com Pancho, a mão sobre o ombro do barman. Viu também quando Augustine alcançou uma folha de papel ao amigo, antes de subir ao palco.
Augustine pegou um contrabaixo e começou a tocar de maneira estranha, embora fascinante. Era como se as duas mãos se movessem com vontades diferentes. A esquerda caminhava na região grave, aproveitando a ressonância, os captadores elétricos que se sensibilizavam ao menor toque, enquanto que a mão direita tocava ritmadamente cordas simultâneas nas áreas agudas. As mãos enormes do negro produziam síncopes, numa cadência harmônica e rítmica que perturbava por ser diferente, mas que também era bonita e resolvia-se em suas dissonâncias. Sobre essa base tão densa, Augustine começou a cantar uma canção em inglês carregado, da qual Demián pouco pôde entender, exceto por uma parte que dizia [among fireworks and stellar collisions / my soul freezing and my eyes at his traces / disturbed by his words and scared by visions / I left the gun to sing and draw their faces], a qual ficou marcada em sua mente, gravando traços de um tempo irreconhecível, fosse passado, presente ou futuro.
A distração de Demián Calixto com a voz profunda e precisa de Augustine foi interrompida por Pancho, sério, que deixou uma folha de papel sobre o balcão, à sua frente. Nela, repousava o retrato em lápis 6B do rosto assustado de Demián. Erguendo-se de uma mesa ao fundo do bar, um homem se aproximava vestindo um jaleco branco.

















