3/4 de Verdade

Demián Calixto em palavras

16 Apr 2008

Primeiro dia depois de ontem

Eu acordei lentamente. Não foi um despertar daqueles de cinema, com direito ao Sol batendo no rosto e pássaros cantando. Eu simplesmente despertei, os olhos pesados e a boca seca, imerso na habitual penumbra que se espalha dentro dos aposentos de dormir.
Olhei para o teto, procurando forças para me espreguiçar. Visualizei o forro branco, nele pendurado um lustre barato que cobria uma lâmpada embaçada, de igual ou menor valor. Me estiquei, percebendo então que eu estava sobre uma cama de casal.
Não era o meu quarto.
Já sentado sobre a cama, olhei ao redor. As paredes eram brancas, havia quadros inexpressivos, um roupeiro pequeno, uma televisão e uma penteadeira, sobre a qual eu pude visualizar dois porta-retratos.
Levantei rapidamente, olhei para a cama desfeita, a fim de encontrar alguma coisa sequer que ligasse minha presença naquele quarto aos acontecimentos do dia anterior.
Nada combinava; até onde eu me lembrava eu havia saído com meu amigo Martín, à noite, depois do trabalho. Fomos ao pub do Senhor Walther, a fim de beber algumas doses de vinho barato e, talvez, conquistar a companhia de algumas garotas. Terminamos a noite um pouco frustrados pela falta de garotas interessantes, e nem nos demos o luxo de ficarmos bêbados. Me despedi de Martín e subi para o apartamento onde moro sozinho. Escovei os dentes e desabei sobre a cama, de casaco e tudo.
Foi uma noite comum do inverno em Córdoba. Fui dormir normalmente, e então acordei em um lugar estranho, vestindo um pijama surrado e sentindo calor. Caminhei pelo quarto, a fim de reconhecer algo familiar naquele ambiente tão estranho. Não havia nada de especial naquele quarto pequeno; dei sucessivas voltas em torno da cama, até que me detive em frente ao espelho da penteadeira.
O que eu via com certeza era meu rosto, mas era como se eu tivesse dormido com vinte e dois anos, e acordado com quarenta e cinco. Os cabelos eram despenteados e as cãs começavam a se espelhar pelas têmporas. Pela primeira vez, eu tinha uma barba cerrada; começava ao fim das costeletas, se espalhava pelas bochechas, pelo queixo, invadia o pescoço, emendava-se com um bigode espesso e negro. Rugas ainda discretas vincavam os cantos dos olhos, a testa e os lados da boca. Meus ombros eram mais largos, e eu visivelmente havia ganho uns sete ou oito quilos.
Agora eu já estava realmente chocado. Baixei os olhos em direção aos porta-retratos, e então meu pavor aumentou ainda mais. Havia fotos minhas com uma mulher, de aparência insípida, os cabelos lisos até os ombros, olhos castanhos tão comuns quanto o seu rosto oval e seu nariz médio.
Quando respirei fundo e parei de ouvir as batidas em meu próprio peito, percebi o barulho de um chuveiro: eu não estava sozinho. Caminhei, lentamente, até a porta de onde o som parecia vir. Ouvi o jato forte de água, acompanhado por uma afinada voz feminina cantarolando uma melodia vagamente familiar.
Tomado pelo estranhamento, só queria fugir e encontrar minha casa, sair à rua e me deparar com os rostos conhecidos, ir até a firma onde trabalho, me livrar daquele sonho sem sentido.
Fui até o roupeiro, abri as portas e vi duas camisas, uma calça jeans e um par de meias. Vesti-os, serviam perfeitamente em meu corpo. Meus sapatos estavam ao lado da cama. Peguei-os em minhas mãos, e caminhei silenciosamente em direção à porta de saída do quarto. Passei por um corredor, apressadamente visualizei uma cozinha e uma sala de TV. Ao final do corredor, a porta da rua, com a chave ainda na fechadura.
Destranquei a porta, olhei para a rua. Não havia sol, nuvens cinzentas traziam o ar de uma chuva que se aproximava. Era uma rua como se fosse em um bairro afastado, poucas pessoas passavam e as casas eram bastante modestas. Tudo era completamente desconhecido.
Sentei-me, então, no meio-fio, a fim de calçar os sapatos. Feito isso, me levantei incomodado por volumes estranhos. Tateei os bolsos das calças. No bolso traseiro, havia uma carteira com meus documentos, um cartão de crédito e alguns poucos pesos. No direito, um telefone celular. Peguei-o, e vi que havia uma mensagem de texto:
"Por onde andas? O menino não passa bem. Beijos, tua esposa."
Meti a mão no bolso esquerdo. Dentro, havia uma aliança. Em minha mão esquerda, uma discreta marca no dedo anular contrastava com minha pele bronzeada.

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