Demián Calixto e a vida breve
Agora Demián Calixto era menino e corria descalço por um pomar de laranjeiras. Apanhava frutas maduras pelo caminho, improvisava um cesto na camiseta surrada, as laranjas caíam; parava, juntava-as do chão. Tornava a correr em direção à velha casa.
Ao se aproximar , percebeu o destino se desvelando ante seus olhos: o pai carregava duas malas e partia a passos largos, sem olhar para trás. Demián apressou a corrida, gritava, entre ofegos, pelo pai. O homem parou e esperou o abraço do filho, que agarrou-lhe a cintura. Calixto perguntou pelo destino do pai, se voltaria à casa, quanto tempo ia levar...
O pai limitou-se a olhar para a mulher indiferente parada à porta da casa, voltou-se para o filho e disse, "um dia eu venho te ver; cuida bem da tua mãe e seja um guri legal". Beijou-lhe a testa, afastou-o gentilmente, e seguiu em passo inabalável rumo à estrada.
Demián ficou parado por alguns instantes, vendo o pai se afastar, lembrando da briga, dos gritos, ofensas que ele não escutava nem entre os meninos raivosos da beira do rio. Engolindo uma enxurrada de lágrimas, retomou sua corrida tempestuosa e seguiu em direção ao matagal.
Um rastro de laranjas levava, horas depois, à beira do arroio. Demián já havia submergido rumo a outra vida.

















